sábado, 3 de junho de 2017

AMIGOS TUBARÕES por Fernando Volpi

AMIGOS TUBARÕES




Ao assistir o documentário exibindo tubarões "amestrados" das Filipinas me lembrei do que escrevi sobre amizade. Uma reflexão curta,  objetiva, espontânea,  com base em constatações quanto a  amizades recentes  que de repente se transformam em supostas velhas amizades de infância. O fenômeno requer prudência, como pude constatar entre  2009 e  2016 em águas nem sempre cristalinas. 

As amizades sólidas,  jovens OU  maduras, são decorrentes de uma série de atitudes positivas e diárias,  pequenos gestos que demonstram  companheirismo,  desprendimento,  doação pessoal,  solidariedade entusiástica.   Ninguém se torna grande amigo  da noite para o dia ou após momentos frouxos e sucessivos de cordialidade aparentemente sem explicação,  como ‘amor a  primeira vista’.
Amizade empática até existe ,    mas não dura  e a maioria se dilui nas constatações negativas subsequentes.
A amizade se torna permanente quando mantemos nosso compromisso com ela. Para tanto,  é preciso uma implacável perseverança. Os ‘especialistas’ em fazer amizades instantâneas às vezes não consideram que a verdadeira amizade não exige mais do que se pode dar,   mas espera tudo o que for possível dar.
Perseverar na amizade significa muito mais que tentativa.  Trata-se de uma disposição convicta e consciente de se  vincular emocional,  intelectual, física e espiritualmente a alguém indelevelmente marcado nas lembranças dos melhores momentos vividos,  há muito ou há pouco tempo,  entre trocas sem pesos e medidas e com aprendizado recíproco.
Na verdade,  cá entre nós, tudo aquilo que você der a  um amigo veterano ou recente estará na verdade investindo em si mesmo,  não meramente pela hipótese do retorno,  mas sobretudo pela certeza de estar perseverando e apostando  no que acredita.
Amizades sem perseverança se perdem.  Amizades sem persistência nunca se concretizam. Nada,   absolutamente nada substitui a determinação honesta nas pessoas que se dispõem a uma participação intensa e completamente desinteressada na vida do outro,  na vida  do seu amigo,  respeitada a  não-interferência.  
Arthur Schopenhauer  foi enfático ao afirmar :“A amizade verdadeira pressupõe uma identificação de fato com o amigo.Ora, o egoísmo próprio à natureza humana é tão contrário a tal sentimento que a amizade verdadeira pertence àquelas coisas que não sabemos se são mera fábula ou se de fato existem em algum lugar,   como as serpentes marinhas gigantes. Todavia, há muitas relações entre os homens  que,  embora se baseiem  essencialmente em motivos egoístas e ocultos de diversos tipos,  passam a ter um grão daquela amizade verdadeira e genuína, o que as enobrece ao ponto de poderem,  com certa razão,  ser chamadas de amizade neste mundo de imperfeições. Elas se elevam muito acima dos vínculos ordinários,  cuja natureza é tal, que não trocaríamos mais nenhuma palavra com a maioria dos nossos bons conhecidos se ouvíssemos como falam de nós na nossa ausência”. 


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